9 de Maio de 2008 |
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Dia da Europa |
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A Europa e o Espírito Europeu Nós, os europeus, devemos considerar-nos como viajantes embarcados num só e mesmo navio (Comenius, Praefatio ad Europeos, 1645). |
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A Europa que celebramos a 9 de Maio é velhinha e tem passado por muitas experiências de amor e desamor, de paz e de guerra, de ser e não ser. Muitos foram os autores das várias sensibilidades, das Ciências à Poesia, passando obrigatoriamente pela Filosofia, que pensaram a Europa. Ela é lugar e pensamento, e/ou cultura que se abriu e, abre ainda, a espaços longínquos. Dela não pode deixar de se pensar, também, como sendo o lugar onde se cruzam ideais políticos, que muitas das vezes, ultrapassam o seu limite geográfico e se consubstanciam para além dos continentes. Falemos, pois, da Europa como lugar de pensamento, abstraindo das suas fronteiras ou dos seus múltiplos Tratados, das multiformidades das uniões que se sucederam ao longo da sua velha história. Esta reflexão, breve, parte deste pressuposto. |
Se a política pode ser entendida como a resposta à necessidade da vida em conjunto, se ela aparece nesse tecido intermediário, nesse espaço mal definido, que é a ponte de uns para os outros, onde cada eu não se quer perder e, simultaneamente, quer encontrar o outro sem prescindir de si, então ela diz respeito a toda a vida humana. A Europa é hoje por excelência, o lugar da política, entendida como organização da vida em comum. Caracterizada pelo alargamento das comunidades, pela manifesta vontade de relação entre elas, pela tendência, não de apagar o papel individual dos Estados, dos governos e das culturas nacionais, mas de encontrar valores comuns de justiça, liberdade, igualdade, solidariedade e respeito, a Europa continua a pensar-se como uma entidade que ultrapassa o sítio geográfico e os limites territoriais. Como “lugar da irrupção do pensamento racional” (Edmund Husserl, A Crise da Humanidade Europeia, 1935), projecta-se como pensamento próprio que se não fecha em si, nem se contenta com esse fechamento. Tal como no mito, é levada para fora de si e dá frutos. É esse o sentido da Filosofia ou da Cência que são o seu espírito. É essa a característica da sua racionalidade: fonte de normas para a vida, quer individual ou comunitária. |
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Que é a política, na Europa, senão o intuito de estabelecer normas para a vida? Que é a política europeia senão a consciência da necessidade de estender a razão até aos limites da Paz? Caminho nem sempre plano, nem sempre aberto e muitas vezes aparentado com a negação e o cansaço da razão: quer por defeito quer por excesso. Este cansaço, a “misologia da razão”, como lhe chama Kant (Fundamentação da Metafísica dos Costumes), caracteriza a crise da Humanidade Europeia: faz a Europa descentrar-se de si, ser outra coisa, ser o que não quis nem pensou ser, perder-se em caminhos rectos, curtos, lineares e geométricos que a trazem cega e intolerante, que a tornam seca e sem alma. É o esquecimento da dimensão da racionalidade plena que se abre à vida e a comodidade duma razão geométrica, que matam a possibilidade da própria vida; que matam o que de Humano há no Homem. Isto leva-nos a um lugar sem política, ou a uma política desenraizada da vida em comum, portanto, à crise da política, e daí, também, a uma crise da razão humanizada. Círculo vicioso entre razão e política? Talvez, mas se a razão pode expressar-se fora dos limites da política, a política não pode exercer-se sem a razão. Ela é, ou deveria ser sempre, uma das expressões da razão enquanto legisladora e prática. Quando assim não foi, na Europa, a crise chegou ao âmago do seu espírito, atacou-o com um golpe quase mortal. |
No final do texto de Husserl (A Crise da Humanidade Europeia) fica-nos a esperança de podermos ser “bons europeus” e, tal como a filosofia, levantar vôo na escuridão. Espera-nos, se tivermos coragem e acreditarmos em nós, a missão renovada de uma interior, livre e imortal espiritualidade. Esta coragem e missão renovadas têm que ser postas nas mãos e no coração da juventude e, por isso, faz todo o sentido a celebração na Escola, em especial na página de Filosofia, desta Europa que é a nossa forma de ser humanos e que não sabemos nem queremos perder. |
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Esta é a Europa do espírito europeu, pleonasmo necessário para acentuarmos a força do espírito, impulso indispensável numa era de criatividade, mudança, e desejo de paz. Celebremos, não a Europa, mas o espírito europeu. Façamos do dia da Europa uma festa em conjunto, por nós e pelas gerações futuras a quem queremos passar, responsável e solidariamente, este Ideal. Lisboa, 25 de Abril de 2008 Maria do Carmo Themudo |
A Europa - Um Projecto Antigo |
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O Inglês é o inimigo do Francês apenas porque é francês; o Bretão odeia o Escocês simplesmente porque é escocês; o Alemão está em conflito com o Francês, o Espanhol com ambos. Oh perversidade dos homens! A superficial diferença dos nomes dos seus países é quanto basta para os dividir! Porque não escolhem antes unir-se com base nos valores que todos partilham? |
Se eu soubesse de alguma coisa que me fosse útil, embora prejudicial para a minha família, afastava-a do meu espírito. Se eu soubesse de alguma coisa que fosse útil à minha família, embora prejudicial para o meu país, procuraria esquecê-la. E eu soubesse de alguma coisa que fosse útil à minha pátria, embora prejudicial à Europa e ao género humano, considerá-la-ia como um crime. |
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Virá o tempo em que a Europa será uma única família, consumando-se então o pacto de federação do género humano. |
Eu não acredito que depois da minha queda e do desaparecimento do meu sistema, haja na Europa um equilíbrio possível sem a aglomeração e confederação dos povos. O primeiro soberano que, no meio da primeira grande convulsão, assumir de boa fé a causa dos povos, colocar-se-á à cabeça de toda a Europa e não haverá um limite para as suas possibilidades. |
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As nações não são eternas. Tal como tiveram um começo, terão um fim. A confederação europeia tomará provavelmente o seu lugar. |
Nacionalismo, Cosmopolitismo e Europeísmo |
Pode considerar-se a história humana no seu conjunto como a execução de um plano oculto da Natureza, a fim de levar a cabo uma constituição estatal interiormente perfeita e, com este fim, também perfeita externamente, como o único estado em que aquela pode desenvolver integralmente todas as suas disposições na humanidade. (…) Vê-se que a filosofia também pode ter o seu quiliasmo [utopia de um paraíso na Terra]; mas será um quiliasmo tal que, para a sua emergência, a sua ideia pode, embora apenas de longe, ser igualmente estimulante, portanto, de nenhum modo fantasiosa. O que importa apenas é se a experiência nos descobre algo de um tal curso do propósito da Natureza. Digo: muito pouco; com efeito, este percurso parece exigir um tempo tão longo antes de se concluir que, a partir da pequena parte que a humanidade percorreu nesta intenção, só com igual incerteza se pode determinar o seu sentido (…). |
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Immanuel Kant, «Ideia de uma História Universal com um Propósito Cosmopolita» (1784) |
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O comércio e a indústria, a troca de livros e de correspondência, o universalismo da cultura de elite, as rápidas mudanças de lugar e de país, a vida nómada que caracteriza actualmente todos os que não são possuidores de terras, – todas estas condições implicam necessariamente um enfraquecimento e, em última análise, uma destruição das nações, pelo menos das europeias, de modo que deverá formar-se, a partir delas, uma raça mista, a do homem europeu. Consciente ou inconscientemente, o fechamento das nações e o fomento de inimizades nacionais dificulta esse objectivo, mas nem por isso, apesar das forças que se lhe opõem, pára a lenta progressão em direcção a essa raça mista. Esse nacionalismo artificial não passa de um cerco imposto violentamente pela minoria à maioria, tendo necessidade, para manter a sua credibilidade, de recorrer à manha, à mentira e à força bruta. |
Não é o interesse da maioria (dos povos), mas, antes de mais, o interesse de certas casas reinantes e de certas classes sociais, que leva a esse nacionalismo. Quando se compreende isto, não há que temer apresentar-se como um Bom Europeu e empenhar-se activamente no projecto de fusão das nações. Friedrich Nietzsche, Humano, demasiado Humano (1878)
A loucura das nações é a razão por que os povos europeus se tornaram, cada vez mais, estranhos uns aos outros, uma ignorância recíproca patológica que dura ainda nos nossos dias. (…) É por isso que, actualmente, é impossível discernir os sinais que anunciam com evidência que a Europa quer unificar-se. Para todos os seres vastos e profundos deste século, a verdadeira tendência do trabalho misterioso do seu espírito foi preparar a via a uma nova síntese e procurar realizar em si mesmos, por antecipação, o Europeu do futuro: só superficialmente e em momentos de fraqueza, eles pertenceram a “pátrias”; tornando-se “patriotas” limitavam-se a descansar de si próprios. Estou a pensar em homens como Napoleão, Goethe, Beethoven, Stendhal, Heine, Schopenhauer e, até, não me queiram mal por isso, Richard Wagner.
Friedrich Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal (1886)
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Os Europeus não sabem viver a não ser quando estão empenhados num grande projecto que os une a todos. À falta deste. aviltam-se e amolecem. A sua alma desagrega-se. Temos hoje, perante os nossos olhos, um começo de desagregação. Os círculos que, até agora, se chamaram nações, chegaram à sua máxima expansão, ou quase, há já um século. Nada mais se pode fazer com elas a não ser superá-las. Não passam de um passado que se acumula em torno do Europeu, prendendo-lhe os movimentos. Com uma liberdade mais enérgica do que nunca, sentimos todos que o ar se torna irrespirável, confinados no seio de cada povo. Cada nação, que foi outrora um espaço amplo e aberto, tornou-se uma província, um “interior”. Na super-nação europeia, que imaginamos, a actual pluralidade não pode nem deve desaparecer. Mas, ao passo que o Estado antigo anulava a diferença entre os povos, ou a deixava inactiva, como que cristalizada, a ideia dinâmica de nação exige a permanência activa dessa pluralidade que foi sempre a alma do Ocidente. |
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José Ortega y Gasset, O Imperativo Europeu (1930) |
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2 de Janeiro de 2008 |
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Para uma ética ambiental |
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Peter Singer Filósofo australiano, nascido em Melbourne em 1946, de pais judeus austríacos, refugiados do nazismo. Professor na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos |
Enfrentamos agora uma nova ameaça à nossa sobrevivência. A proliferação de seres humanos, associada aos resíduos do crescimento económico, é tão capaz de varrer a nossa sociedade da face da Terra – e todas as restantes sociedades – como as velhas ameaças tradicionais. Ainda não se desenvolveu uma ética capaz de fazer face a esta ameaça. Alguns princípios éticos que possuímos correspondem exactamente, na realidade, ao contrário daquilo que precisamos. O problema é que (...) os princípios éticos mudam lentamente e temos pouco tempo para desenvolvermos uma nova ética do meio ambiente. Uma tal ética consideraria eticamente duvidoso todo o acto nocivo para o ambiente e os actos desnecessariamente prejudiciais como males claros. É este o aspecto sério subjacente à minha observação (...) de que as questões morais levantadas por conduzir um automóvel são mais graves do que as suscitadas pelo comportamento sexual. Uma ética do meio ambiente acharia que poupar e reciclar recursos seria virtuoso e que o consumo extravagante e desnecessário seria uma depravação. Para citar apenas um exemplo: da perspectiva de uma ética do meio ambiente, a nossa escolha de entretenimentos não é neutra. Actualmente, encaramos a opção entre corridas de automóveis ou de bicicletas, entre esqui aquático e windsurf, uma mera questão de gosto. No entanto, há uma diferença essencial: as corridas de automóveis e o esqui aquático exigem o consumo de combustíveis fósseis e a descarga de dióxido de carbono na atmosfera. As corridas de bicicleta e o windsurf, não. Quando levarmos a sério a necessidade de preservar o ambiente, as corridas de automóveis deixarão de ser formas aceitáveis de entretenimento, tal como hoje já não é aceitável lançar cães contra ursos acorrentados para os enraivecer. |
É fácil discernir as linhas gerais de uma ética verdadeiramente ambientalista. Ao seu nível mais fundamental, uma tal ética promove a consideração pelos interesses de todas as criaturas sencientes, incluindo as gerações subsequentes que se projectam no futuro distante. É acompanhada por uma estética de apreço pelos lugares selvagens e pela natureza intacta. A um nível mais minucioso, aplicável à vida dos habitantes das cidades, desencoraja as famílias numerosas. (Neste ponto estabelece um agudo contraste com algumas crenças éticas actuais que são relíquias de um tempo em que a Terra era pouco povoada) (...). |
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Uma ética do meio ambiente rejeita os ideais de uma sociedade materialista, na qual o êxito é medido pelo número de artigos de consuma que uma pessoa consegue acumular. Em seu lugar, ajuíza o êxito em termos do desenvolvimento das potencialidades de cada qual e da conquista da auto-realização e da felicidade. Promove a frugalidade, na medida em que é necessária para minimizar a poluição e garantir que tudo pode ser reutilizado vezes sem conta. Deitar fora descuidadamente materiais que podem ser reciclados é uma forma de vandalismo, é roubar recursos do planeta que são nossa propriedade comum. (...) Temos de reavaliar a nossa noção de extravagância. Num mundo sujeito a grande pressão, este conceito não se limita a carros de luxo ou a champanhe Dom Perignon. A madeira proveniente de uma floresta tropical é extravagante (...). Os produtos de papel que se deitam fora são extravagantes (...). “Dar um passeio de carro pela província” constitui uma utilização extravagante de combustíveis fósseis que contribui para o efeito de estufa. No decurso da segunda guerra mundial, quando a gasolina era escassa, havia cartazes que perguntavam: “A sua viagem é mesmo necessária?” Apelar para a solidariedade nacional para combater um perigo visível e imediato foi altamente eficaz. O perigo para o nosso ambiente é menos imediato e mais difícil de vislumbrar, mas a necessidade de suprimir as viagens desnecessárias e outras formas de consumo dispensável é igualmente grande. (...) |
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A ênfase na frugalidade e numa vida simples não significa que a ética do meio ambiente veja com maus olhos o prazer, mas que os prazeres que valoriza não advêm de um consumo exagerado. Provêm, em vez disso, de relações pessoais e sexuais calorosas, da proximidade das crianças e dos amigos, da conversa, |
de desportos e entretenimentos que estão em harmonia com o nosso ambiente sem o agredirem; da alimentação que não se baseia na exploração de criaturas sencientes nem destrói a Terra; da actividade e trabalho criativos de todos os tipos; e, (com o devido cuidado para não se estragar, precisamente, o que é mais valioso) da apreciação dos lugares ainda intactos do mundo onde vivemos. Peter Singer, Ética Prática (1993), trad. port. Álvaro Augusto Fernandes, Lisboa, Gradiva, 2002 (2ª ed.), pp. 308-312 http://www.princeton.edu/~psinger/ |
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Alguns links de ética ambiental: |
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10 de Dezembro de 2007 |
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Desidério Murcho Professor de Lógica e Metafísica na Universidade Federal de Ouro Preto (Brasil). Membro do Centro para o Ensino da Filosofia da Sociedade Portuguesa de Filosofia. |
Filosofia: a arte de pensar A filosofia é uma disciplina algo diferente das outras. Em história ou biologia, por exemplo, trata-se sobretudo de compreender um conjunto de importantes resultados, e de saber eventualmente raciocinar com base neles. Raramente ou nunca os estudantes se deparam com problemas em aberto, apesar de haver vários problemas em aberto nessas disciplinas. Um problema em aberto é um problema que os especialistas dessa disciplina não sabem resolver — estão a tentar resolvê-lo agora, tal como no passado tentaram e conseguiram resolver os problemas que deram origem ao que hoje são os resultados que estudamos no ensino secundário. |
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Porque em filosofia não há resultados consensuais substanciais para estudar, esta disciplina exige dos estudantes — e dos professores — uma atitude diferente da que têm relativamente a outras disciplinas: em filosofia, não é apenas uma questão de compreender as ideias dos filósofos e de saber explicá-las. Em filosofia, o objectivo é aprender a discutir as ideias dos filósofos — ou seja, aprender a filosofar, gradualmente. É como aprender a pintar ou aprender natação. Nos dois casos podemos aprender muitas teorias sobre pintura e sobre natação, mas o objectivo dessa aprendizagem é saber pintar um quadro ou saber nadar. Analogamente, é importante compreender correctamente as ideias dos filósofos, mas o objectivo é saber filosofar e não apenas saber repetir as ideias dos filósofos. |
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Isto significa que a filosofia é uma disciplina muitíssimo criativa; não é apenas uma questão de compreender as coisas, é uma questão de nos entregarmos à mesmíssima discussão a que os grandes filósofos do passado e do presente se entregam. Significa que teremos de apresentar ideias, argumentos, objecções, contra-exemplos; teremos de compreender correctamente os problemas em causa, para podermos avaliar as diferentes teorias ou teses que procuram resolvê-los. Tudo isto significa que temos de ter alguns instrumentos críticos, que nos permitam avaliar ideias e argumentos, teorias e teses. A uma parte desses instrumentos críticos chama-se lógica, tanto informal como formal. A lógica permite-nos estudar melhor os argumentos dos filósofos e ajuda-nos a argumentar melhor a favor das nossas ideias ou contra as ideias que consideramos erradas. Para nos orientarmos nesta disciplina, não basta saber que a filosofia trata fundamentalmente de problemas em aberto. É preciso também ter uma ideia clara do tipo de problemas abordados pela filosofia. Neste caso, a filosofia é parcialmente semelhante a uma disciplina que todos conhecemos bem: a matemática. É semelhante à matemática no sentido em que na matemática, ao contrário da física ou da história, não tratamos de problemas empíricos; ou seja, não tratamos de problemas que possamos resolver recorrendo à experiência empírica — à visão, medição, testes laboratoriais, telescópios, microscópios, etc. |
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Os problemas da matemática abordam-se recorrendo unicamente ao pensamento, sem auxílio da experiência empírica. O mesmo acontece na filosofia: os problemas da filosofia abordam-se recorrendo unicamente a pensamento. Mas há uma diferença fundamental: na matemática só se abordam problemas que podemos resolver ou pelo menos formular formalmente, recorrendo aos formalismos da própria matemática. No caso da filosofia, abordamos problemas que não podem ser resolvidos formalmente, recorrendo à matemática ou à lógica. |
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Mas eis a filosofia em acção: se um filósofo nos disser uma coisa destas sobre a filosofia, nós podemos perguntar-lhe por que razão haveremos de aceitar que só é legítimo estudar os problemas para os quais temos métodos decisivos de solução. E agora o filósofo fica em apuros, pois seja qual for a resposta que der, esta resposta é tipicamente filosófica: será um argumento, e esse argumento não será empírico nem formal. E assim mostramos que a filosofia é inevitável, pois mesmo para refutar a filosofia temos de argumentar filosoficamente: não há argumentos científicos ou matemáticos ou históricos contra a filosofia. |
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| Assim, os problemas da filosofia são precisamente os problemas que queremos resolver porque nos preocupam — mas não sabemos resolvê-losde outra maneira senão pensando tão cuidadosamente quanto possível sobre eles. Não sabemos resolvê-los matematicamente, nem empiricamente, nem historicamente. Tudo o que podemos fazer é pensar. Daí que, num certo sentido, a filosofia seja a arte de pensar. | ||
Desidério Murcho |
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