Trabalhos de Alunos


 
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Manuel Traquete (15 anos)

10º ano, Turma 12, nº 18

Dezembro 2007



SERÁ QUE TEMOS LIVRE-ARBÍTRIO?

Temos ou não livre-arbítrio? Será que tudo o que fazemos já está determinado? Controlamos o nosso destino ou somos meras peças de xadrez no “tabuleiro” da mãe natureza? Será a experiência da liberdade um facto ou uma ilusão? Estas são algumas das questões relacionadas com o problema do livre-arbítrio às quais a Filosofia tem tentado dar resposta desde os seus primórdios. Afinal, somos ou não livres? Com este ensaio, o que eu pretendo é analisar as teorias que pretendem dar resposta a esta questão e explicar claramente a minha posição pessoal, apresentando os argumentos que a sustentam. Porém, decerto que não é aquilo que eu ou qualquer outra pessoa venha a escrever que fará com que se chegue a um consenso acerca do problema. Esta questão do livre-arbítrio tem sido discutida por filósofos há vários séculos. Várias teorias foram sendo apresentadas, todas com um razoável conjunto de argumentos a seu favor. Isto demonstra que muito dificilmente se chegará alguma vez a uma solução definitiva para este problema. Contudo, é essa a minha principal motivação para redigir este ensaio. Ao reflectir cuidadosamente acerca das várias teorias e ao procurar tomar uma posição pessoal, sinto que estou a satisfazer a minha sede de conhecimento e a alargar os horizontes da minha mente, participando na discussão dum problema filosófico importante, e, quem sabe, a dar um contributo pessoal útil. É isso que espero conseguir através do meu ensaio. 

Clicar para fazer o download do texto integral deste ensaio.
 
 



SERÁ QUE SOMOS TODOS EGOÍSTAS?
     
Eis a resposta dada pelo grupo dos alunos Daniel, Gonçalo, João, Ricardo e Rúben do 10º Ano Da Escola Secundária de Oliveira do Bairro à questão referida, que lhes foi proposta pelo seu professor, Victor João Oliveira, e divulgada no página de filosofia da escola (QUALIA):
 


Na realidade, ninguém é verdadeiramente altruísta, o que pode ser explicado por uma simples razão: o Homem não tem essa capacidade. Todas as acções humanas são motivadas pelo egoísmo, pois o ser humano apenas se interessa consigo mesmo e em satisfazer as suas necessidades. Na verdade, todo o comportamento “altruísta” está claramente ligado ao benefício próprio: ao desejo de reconhecimento público ou ao prazer da satisfação pessoal, por exemplo, ou ainda à esperança da recompensa divina.

Cada acto de aparente altruísmo pode ser justificado ou substituído por uma explicação reveladora de uma motivação egoísta. Veja-se o caso da caridade. Embora os actos de caridade pareçam actos de profunda abnegação, não passam do prazer de cada um na demonstração dos seus próprios poderes. Um homem caridoso está apenas a demonstrar a si e às outras pessoas que tem mais recursos que os outros, que é superior, pois é capaz de cuidar não só de si mesmo, mas também de outrem, embora às vezes possa não pensar estar a fazê-lo.

Também a piedade é uma pura farsa “altruísta”, uma vez que a razão pela qual nos sentimos incomodados com a infelicidade dos outros é pensarmos que a mesma coisa nos podia acontecer a nós. A “piedade” consiste em imaginar os nossos próprios infortúnios futuros, partindo da consciência das calamidades dos outros. A explicação da piedade dada pela teoria egoísta pode assim esclarecer facilmente o facto de sentirmos maior piedade de uma pessoa boa do que de uma pessoa má: a piedade requer um certo sentido de identificação com a pessoa que sofre, pois sentimos piedade de alguém quando nos sentimos no seu lugar, mas como todos pensamos ser pessoas boas, não nos identificamos com as que pensamos serem más. Assim, os nossos sentimentos de piedade variam em função directa do carácter da pessoa que sofre, porque o nosso sentido de identificação varia da mesma forma.

Do mesmo modo, cada um de nós está intimamente familiarizado com as suas próprias necessidades e desejos, não conhecendo de uma forma correcta as necessidades das outras pessoas e não estando, portanto, bem colocados para as satisfazer. Para além disso, utilizar as pessoas como objecto da nossa “caridade” é degradante para elas e priva-as da sua dignidade – as pessoas deixam de ter confiança em si mesmas e tornam-se dependentes dos outros. Tomemos como exemplo um mendigo habituado a receber esmolas dos outros. Este torna-se dependente das esmolas que as pessoas lhe dão e convence-se de que é incapaz de arranjar emprego, deixando de ter confiança em si mesmo.

Um outro ponto forte da teoria egoísta é a evidência da preocupação que todos temos connosco próprios, sendo um factor de importância esmagadora na motivação. Na verdade, cada um de nós tem uma só vida, tendo esta uma importância suprema. 0 egoísmo ético é a teoria que melhor valoriza o indivíduo, permitindo a cada pessoa encarar a sua vida como tendo um valor único. A ética do altruísmo leva a vida do indivíduo como algo que devemos estar prontos a sacrificar para o bem dos outros não tomando a sério o valor do indivíduo humano nem dos seus próprios interesses. Faz-se então a escolha parecer óbvia ao retratar a ética do altruísmo como uma doutrina demente que apenas um puro idiota poderia aceitar.

Para além disso, a doutrina do egoísmo não põe em causa a moralidade do senso comum, apenas a tenta explicar/sistematizar: não nega a existência de comportamentos como dizer a verdade, cumprir as nossas promessas, não fazer mal aos outros, entre outros, apenas explica que estes comportamentos são na verdade actos egoístas e, como tal, motivados pelo interesse próprio. Um exemplo que demonstra claramente esta situação é o seguinte: um comerciante de uma feira apenas dá o troco correcto aos seus clientes com medo de ser penalizado pela sociedade por burlar as pessoas.

Em suma, a ética altruísta é uma espécie de fraude, uma vez que quase todas as pessoas, mesmo aquelas que defendem o altruísmo e o auto-sacrifício, se colocam em primeiro lugar, e aquelas que não o fazem é apenas por recearem ficar mal vistas pela sociedade.




 
A leitura do texto anterior suscitou da parte de um aluno da nossa escola uma resposta polémica, defendendo opinião oposta à dos seus colegas de Oliveira do Bairro num texto que a seguir se transcreve, após ter sido divulgado no QUALIA:


Li o texto elaborado pelos alunos do 10º C (Daniel, Gonçalo, João, Ricardo e Rúben) da Escola Secundária de Oliveira do Bairro. Gostei muito de o ler, e, tenho de o admitir, a argumentação usada merece ser tida conta. No entanto, não concordo com as teses segundo as quais o Homem não só não possui a capacidade de ser altruísta, como também não tem quaisquer motivos para o ser.

Na opinião destes alunos, todo o comportamento do Homem é movido por intenções egoístas, tais como o desejo de reconhecimento público, o prazer da satisfação pessoal, ou mesmo a esperança de recompensa divina. Para começar, é preciso esclarecer que a teoria altruísta não exclui uma preocupação do Homem com o seu próprio bem (“O bem é aquilo por que tudo anseia” – Aristóteles, Ética a Nicómaco) Todo o ser racional quer o seu próprio bem. No entanto, tal não invalida que também seja capaz de se preocupar genuinamente com o bem do outro, ainda que, muitas vezes, tal preocupação apareça em plano secundário em relação ao interesse pessoal. O senso comum tem a ideia errada de que o altruísmo exclui completamente o interesse por nós próprios. Esse preconceito é, a meu ver, a razão de vários conflitos na discussão deste problema. O altruísmo implica a preocupação para com o outro, mas não exclui a preocupação com o nosso próprio bem.

Não ponho em causa que algumas (até mesmo muitas) acções humanas sejam motivadas pelo interesse pessoal, mas nem todas o são. Imagine-se um homem que faz um donativo de muito dinheiro a uma instituição de caridade e que, devido à sua boa acção, é alvo dum grande reconhecimento e admiração públicos. Aquilo que é preciso para averiguar se esta acção se trata duma acção altruísta ou duma acção egoísta é descobrir se o reconhecimento público foi um efeito pretendido ou meramente previsto da acção. No primeiro caso, ter-se-á tratado duma acção egoísta, e no segundo duma acção altruísta. Aquilo que os autores do texto afirmam é que há sempre um fim egoísta entre os efeitos pretendidos de qualquer acção do Homem. Corresponderá isto à verdade? Tentarei, através dum exemplo prático, mostrar que não. Há vários casos conhecidos de pessoas que sacrificam as suas vidas para salvar um amigo ou um familiar. A intenção de alguém que o faz é puramente altruísta, a meu ver. O seu objectivo é, única e exclusivamente, salvar a vida do amigo ou do familiar. O mais provável é, sem dúvida, que, após a sua morte, a pessoa que agiu heroicamente seja relembrada pelo universo das pessoas que a conhecem pela sua valentia e coragem. No entanto, isso está longe de constituir um efeito pretendido da acção. Não faria, aliás, qualquer sentido querer sacrificar a vida em troca do reconhecimento dum universo reduzido de pessoas. Apenas uma pessoa com desejos extremamente bizarros podia sacrificar a sua vida movida por intenções egoístas. Os autores do texto afirmam que “cada acto de aparente altruísmo pode ser justificado ou substituído por uma explicação reveladora de uma motivação egoísta.” No entanto, tal como um acto pode ser explicado por uma motivação egoísta, também pode ser justificado por um fim altruísta. Uma pessoa pode encontrar diversas explicações para uma certa acção, mas daí não se segue nada. Para uma mesma acção, podem-se especular vários motivos de natureza diversa, mas a maioria não passa de mera suposição. Logo, este não é um argumento sólido a favor do egoísmo psicológico. No entanto, esta é apenas um situação problemática extrema. O altruísmo pode-se encontrar em situações muito mais comuns no dia-a-dia. Aliás, toda a amizade se baseia na preocupação directa e desinteressada para com os outros, no altruísmo moral.

Quando nutrimos amizade ou amor por alguém, tentamos sempre zelar pelo bem dessa pessoa. O motivo pelo qual queremos sempre o melhor para aqueles de quem gostamos é puramente altruísta. Sou capaz de reconhecer que há quem ajude os seus amigos apenas porque não quer perder a sua amizade. No entanto, tal não se trata duma verdadeira amizade. Não é senão uma amizade falsa e interesseira. Uma verdadeira amizade implica que as partes se preocupem directa e desinteressadamente pelo outro. Por exemplo, quando uma pessoa dá dinheiro a uma amiga sua em necessidade (sem exigir devolução), a sua acção pode ser altruísta (se, e só se, for praticada com o intuito de ajudar o amigo e não com o de não perder a sua amizade.) Portanto, o altruísmo é condição necessária e suficiente para que existam a amizade e o amor. A amizade e o amor são um facto, logo o altruísmo também o é.

No entanto, também existe altruísmo fora da amizade. Por vezes, o ser humano ajuda desinteressadamente mesmo aqueles que nem sequer conhece. Por exemplo, quando alguém doa dinheiro a uma associação de solidariedade, pode perfeitamente estar a fazê-lo apenas para ajudar. Mesmo que o que dizem os autores do texto («A “piedade” consiste em imaginar os nossos próprios infortúnios futuros, partindo da consciência das calamidades dos outros.») seja verdade (e não afirmo que o seja), daí não se segue que as acções são sempre movidas por fins egoístas. Metermo-nos no lugar de outra pessoa e tentar fazer com que não lhe aconteça a ela aquilo que não desejamos para nós próprios é, a meu ver, uma demonstração inequívoca de preocupação com o outro, de altruísmo (desejamos bem aos outros do mesmo modo que a nós.) Os autores do texto afirmam ainda que sentimos mais piedade duma pessoa boa do que duma pessoa má, visto que nos identificamos melhor com as pessoas boas, já que todos formamos uma opinião muito boa acerca de nós próprios. Ora, na maioria das vezes, ao fazermos doações de dinheiro ou mesmo de alimentos, não temos a menor ideia de com quem vai ser empregue o nosso dinheiro. Não sabemos se as pessoas que vão usufruir do nosso donativo são boas ou más, ou seja, ajudamos mesmo estando cobertos por um véu de ignorância em relação àqueles que vamos ajudar.

Há, ainda, muito mais acções altruístas que podemos presenciar (ou mesmo efectuar) no nosso quotidiano; ajudar uma senhora idosa a atravessar a rua, trabalhar nos bombeiros voluntários ou ajudar uma criança perdida a encontrar os seus pais são exemplos de acções praticadas para ajudar os outros (e a comunidade em geral, no caso dos bombeiros voluntários), para ajudar pessoas que nós não conhecemos e que, provavelmente, nunca mais veremos no decorrer das nossas vidas, pessoas que tanto podem boas ou más, pobres ou ricas, etc. Um defensor do egoísmo psicológico poderá afirmar que há sempre uma recompensa para quem pratica estas acções (nem que seja um mero sentimento de satisfação pessoal.) Isto pode até ser verdade, mas é preciso distinguir as acções que são praticadas para obter uma recompensa das acções que não são praticadas para obter recompensas, mas sim praticadas de boa vontade, e que, em consequência disso, vêm acompanhadas de recompensa. Ainda que pareça uma mera diferença verbal, não o é. Não há diferença mais importante para deliberar se determinada acção é egoísta ou altruísta. Se a acção for praticada para obter uma recompensa, então é uma acção egoísta. Se, pelo contrário, for praticada com o fim último de ajudar e daí advir uma recompensa, então a acção é altruísta. Além disso, mesmo que, como dizem os autores do texto, a doutrina do egoísmo não ponha em causa a moralidade do senso comum, o altruísmo está ainda mais de acordo com o senso comum. É aceite pela esmagadora maioria das pessoas que certas acções do Homem são meritórias e dignas de reconhecimento, pois são altruístas. Logo, a teoria altruísta, além de ser sustentada por diversos argumentos e exemplos, também está de acordo com as crenças do senso comum.

Não nego, porém, que uma parte significativa do comportamento humano seja em função do interesse pessoal de cada um, mas daí não se segue que o Homem seja incapaz de ser altruísta. Há acções praticadas com a intenção genuína de ajudar o outro. Logo, o Homem é capaz de ser altruísta e o egoísmo psicológico é falso.

Rejeitado o egoísmo psicológico, refutarei agora a segunda tese, segundo a qual o homem não tem quaisquer razões para ser altruísta. Ora, penso que é bastante claro que uma vida vivida apenas em função dos nossos interesses pessoais jamais poderá ser feliz. Se não conseguirmos encontrar objectivos que extravasem a nossa existência, depressa a vida se tornará monótona e aborrecida. Teremos tendência a ter poucos amigos, poucas pessoas que gostem realmente de nós. Estaremos sempre muito desamparados e, por mais que nos esforcemos, não conseguiremos ser felizes. Pelo contrário, se zelarmos pelo bem dos outros e nos preocuparmos com eles, temos tudo a ganhar. As pessoas gostarão, e, provavelmente, retribuirão o bem que lhes fazemos (como diz o povo, “Amor com amor se paga”) – o que não implica que ao sermos altruístas estamos, na verdade, a ser egoístas, visto que se trata apenas duma consequência muitas vezes imprevista, não dum fim pretendido. Teremos muitos amigos e a vida jamais nos parecerá monótona, pois teremos sempre em mente objectivos que transcendem os horizontes da nossa própria existência.

Foi um prazer participar convosco na discussão dum problema filosófico tão interessante (Daniel, Gonçalo, João, Ricardo e Rúben).

Manuel Traquete
Escola Secundária de São João do Estoril – 10º 12